Projeto lança série de vídeos sobre o Mercadão Central de RP

Em homenagem ao aniversário de 165 anos de Ribeirão Preto, neste sábado (19/06), o Sesc Ribeirão lança a série “Mercadão Central de Ribeirão Preto: Memória e Identidade” pelo YouTube. Com apresentação do professor e mestre Toni de Souza, os vídeos – de cunho turístico, histórico, geográfico e gastronômico – abordam o entendimento do que é ser “caipira”, particularmente na região norte do estado de São Paulo, no modo de acolher e da mesa farta.

O Mercadão Central, com mais de um século de vida, faz parte das expressões culturais e da história de Ribeirão Preto e seu povo. (Foto: Matheus Doninha)

Os protagonistas do curta são a cachaça, o açúcar, o limão, a mandioca, a carne bovina, o queijo e a goiabada, ingredientes comprados durante um passeio pelo Mercadão, que se transformam numa boa caipirinha, na típica vaca atolada e na deliciosa sobremesa Romeu e Julieta.

Segundo Vitor Hugo Vieira, turismólogo e programador do Sesc Ribeirão, os mercados existentes no Brasil e no mundo são mais do que centros de compra e venda de mercadorias. “Eles fazem parte das expressões culturais e da história de uma cidade e seu povo. São centros populares com uma infinidade de produtos e iguarias que são um reflexo da identidade de cada região. Esses locais nos revelam uma história que conta nossos hábitos alimentares e comportamentos, tradições religiosas e culturais”, afirma.

Vitor Hugo destaca a rica história que cerca o Mercadão Central e que ganha vida com o público diverso que o frequenta diariamente para comprar, conversar, fazer suas refeições. “Esse lugar, com mais de um século de vida, considerado patrimônio arquitetônico primordial para o entendimento das práticas culturais no município, além de ser um importantíssimo referencial material, ainda é o lócus de múltiplas relações imateriais, determinantes para reconhecermos o que é ser ribeirão-pretano”, ressalta o turismólogo.

Para o professor e mestre Toni de Souza, que apresenta o vídeo, os aromas e os sabores que impressionam nossos sentidos são elementos muito poderosos para nos situar no mundo e definir nossa identidade, pois nos levam a diversas viagens no tempo e no espaço revelando nossos lugares de memória. “Essas referências culturais possuem forte vínculo com os objetos urbanos que fazem parte de nosso repertório espacial e, por consequência, com o patrimônio em suas várias possibilidades. Um breve caminhar pelos corredores do Mercadão Central provoca todos os sentidos remetendo a uma gostosa viagem no tempo”, diz Toni.

No primeiro vídeo, que tem duração de 10 minutos e será lançado neste sábado (19/06), Toni de Souza vai às compras no Mercadão para escolher cachaça, açúcar, limão, mandioca, carne bovina, queijo e goiabada. No filme, o espectador acompanha o apresentador pelos corredores deste local de encontros, de trocas e de muita prosa com os comerciantes – hoje são 67 empresas de diversos segmentos, muitas delas passadas por gerações -, que o ajudam a selecionar os melhores ingredientes para as receitas da caipirinha, da vaca atolada e da sobremesa Romeu e Julieta.

Neste passeio pelo Mercadão, Toni encontra a professora de História Nainora Maria Barbosa de Freitas, com quem bate-papo descontraído no balcão da lanchonete, saboreando uma vitamina preparada na hora.

No segundo vídeo, que será lançado no próximo sábado (26/06), Toni – que é graduado em Gastronomia -, apresenta direto da cozinha do Sesc Ribeirão um cardápio típico da região, de dar água na boca. O espectador vai aprender a preparar a primeira e oficial receita de caipirinha, com sua atualização recente no site da International Bartenders Association.

Já o prato de vaca atolada é apresentado considerando o contexto histórico da época, com todas as limitações impostas pela natureza, adversidades da vida no campo e, ao mesmo tempo, pela fartura que vinha da roça e da horta. “Assim, ele é tratado como uma refeição de prato único, ou seja, onde estão juntos a proteína animal e o carboidrato, sem que haja a necessidade de utilizar uma outra panela. Abordaremos sua origem e elaboração, ingredientes e processos, juntamente de suas variações regionais”, explica Toni.

Para finalizar, uma deliciosa sobremesa com o queijo parcialmente curado com goiabada cascão e suas inúmeras possibilidades. A produção dos pratos é intercalada com Toni e Nainora caminhando pelo Centro de Ribeirão, do Calçadão da General Osório até chegar ao Quarteirão Paulista. Uma conversa sobre a história, a lenda do chopp duto, os prédios históricos, os empreendedores, os costumes.

O projeto integra um eixo programático do Programa de Turismo Social do Sesc São Paulo chamado “Outras viagens”, uma iniciativa em que os temas do turismo e das viagens são abordados em atividades sem deslocamento dos participantes, visando também a difundir conhecimentos sobre a história e cultura local.

Com conteúdo didático e histórico, a série propõe questionamentos para o reconhecimento da identidade dos moradores de Ribeirão Preto e das cidades da região: “como nos vinculamos ao nosso território por meio dos insumos que encontramos nesse local?”; “como nossas práticas culturais, ou seja, os ingredientes que utilizamos e nossa forma de cozinhar nos vinculam a um grupo?”; “como o patrimônio imaterial, representado pela gastronomia do interior do Brasil, pode nos mostrar quem somos?”.

História do Mercadão

*Ribeirão Preto foi fundada em meados do século 19 como resultado da expansão da ocupação do território brasileiro às margens do Caminho dos Goiases e também por entrantes mineiros. Assim, respectivamente, de um lado havia a pressão para a expansão em direção ao Centro-Oeste brasileiro e por outro lado havia a ocupação do território por parte dos mineiros que buscavam outras atividades devido à decadência da mineração, no agora estado de Minas Gerais.

Sob a lógica dos deslocamentos, os pousos, o movimento dos tropeiros e a intensa circulação de mercadorias no território, progressivamente vão sendo criados e se consolidando, os vários povoados que mais tarde se transformariam nos municípios que conhecemos hoje. Alguns deles se desenvolvem economicamente e também sofreram fortes incrementos populacionais. Um desses centros, que rapidamente ganha novas feições, é o atual município de Ribeirão Preto.

Um dos elementos fundamentais para o maior dinamismo no território foi a atividade cafeeira e, de modo subjacente, a atividade ferroviária, por meio da Companhia Mogiana. Uma das principais paradas ferroviárias era justamente a estação da cidade, localizada onde hoje está o Pronto Socorro Central e também o Terminal Rodoviário. Ainda é possível, com um pouco mais de atenção, identificar vestígios desse tempo.

Por uma questão de logística, a poucos metros da Estação Ribeirão Preto foi construído um importante centro comercial que sucederia algumas barracas e edificações precárias destinadas ao comércio de bens secos e molhados, necessários à vida da pequena cidade que se organizava. Essa é a primeira edificação que abrigou o Mercadão Central de Ribeirão Preto, construído entre os anos de 1899 e 1900. Sua localização era no interior da quadra formada pelas ruas São Sebastião, José Bonifácio, Américo Brasiliense e a avenida Jerônimo Gonçalves, em área que foi “tomada” do córrego Ribeirão Preto, uma vez que houve uma retificação do curso e aterramento da sua planície de inundação para que fosse possível a implantação de novas ruas e lotes.

Em estilo eclético, era todo feito em tijolos de barro, com pé direito alto e uma cobertura circundada por vidros. Rapidamente tornou-se um marco urbano abastecendo as famílias do município e da região com alimentos, calçados, roupas, tecidos, ferramentas entre outras mercadorias que desembarcavam na estação Ribeirão Preto.

Ao longo dos primeiros oito anos, o grupo Folena & Cia foi concessionário do imóvel até que a Prefeitura Municipal tomou posse indenizando-os com 120 contos de reis.

Embora o embate entre a edificação e as águas do Ribeirão Preto fossem frequentes, contraditoriamente o prédio foi totalmente destruído por um incêndio no dia 7 de outubro de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Não há consenso sobre a origem do incêndio, mas os jornais da época especulavam sobre duas possibilidades. A primeira atribuía o início a um raio que atingiu a edificação e a segunda, indicava que as chamas poderiam ser decorrência de problemas nas instalações elétricas. Para qualquer uma das duas possibilidades, certamente o dano foi mais intenso devido ao fato de a cobertura do mercado ser toda feita em telhas de barro e vidro suportados por estrutura de madeira, rapidamente consumida pelo fogo.

O fato é que, durante 16 anos, com muitas controvérsias e disputas políticas, o município ficou sem este importante espaço, obrigando muitos dos antigos comerciantes a se estabelecerem novamente em insalubres barracas de rua ou em edificações precárias. Muitos deles, inclusive, abandonaram as atividades. Somente a partir de 1956 a obras se iniciam e o prefeito Costábile Romano inaugura a nova edificação, projetada pelo arquiteto Jaime Zeiger, em 28 de setembro de 1958. Assim, a edificação atual tem uma área total de 4.150 metros quadrados cobertos e possui linhas modernas com arcos nas fachadas e a metade superior das paredes feita em vidro. O telhado é metálico e também suportado por estrutura metálica. Há ainda um mural com uma escultura abstrata coberta por mosaico em pastilhas coloridas feito pelo artista plástico Bassano Vaccarini.
Internamente há cinco corredores secundários e um corredor principal, que divide o mercado ao meio e onde estão instalados os 152 boxes que oferecem mercadorias diversas aos mais de três mil clientes que frequentam o local diariamente. Foi tombado junto ao Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) em 1993 como patrimônio Histórico (Lei municipal nº 6.597) e também é declarado ponto turístico do município (Lei municipal nº 10.250).

Atualmente a Coderp (Companhia de Desenvolvimento de Ribeirão Preto) é a responsável por sua administração junto à Acomecerp (Associação dos Comerciantes do Mercado Municipal de Ribeirão Preto) criada em 1985. A partir do ano de 1993, o prédio passou por atualização de suas instalações elétricas, hidráulicas e também ocorreu a troca do telhado, deixando-o com as características atuais.

*Texto produzido pelo Sesc Ribeirão Preto, a partir de pesquisas bibliográficas

Serviço

Projeto: ‘Mercadão Central de Ribeirão Preto: Memória e Identidade’
Apresentação e mediação: Toni de Souza – graduado em Geografia, Pedagogia e Gastronomia; mestre em Geografia; consultor do MEC como avaliador de cursos de Gastronomia; professor; DJ; jornalista e fotógrafo
Convidada: Nainora Maria Barbosa de Freitas – graduada, mestre e doutora em História; professora e membro da Academia Ribeirão-pretana de Educação
Datas: Parte 1 – sábado (19/06) / Parte 2 – sábado (26/06)
Local: Canal do Sesc Ribeirão Preto no YouTube (YouTube.com/sescribeirao)

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